A sensação era boa. A água caía suavemente sobre sua face, e todo o terror e os pesadelos de toda uma tarde estavam sendo lavados de si por aquela chuva. Abriu a boca para que pudesse aproveitar melhor toda aquela dádiva, mas calculou mal a força dos pingos incessantes, e engasgou. Graças ao senso de preservação, girou suas pernas no ar para que ficasse de bruços, e todo o líquido indesejado, que entrara por onde não deveria, saísse com a tosse que não demoraria aparecer. No movimento, virara a velha caixa de papelão, rolara um pouco pelo chão duro de onde estava, até parar numa poça de lama. Após algumas dezenas de tossidos e ânsias, sentiu o pulmão livre, e puxou, dos confins de seu corpo, um fôlego que nada mais queria dizer que: Estou vivo!
Em pouco tempo a chuva engrossou e Jasper saiu de seu torpor. Sua mãe não estava lhe servindo o leite, mas a natureza lhe mandava água. Ao abrir a boca, o garoto sentiu como se se libertasse um homem há muito preso, e atormentado por um desejo que não podia de forma alguma saciar. Apesar de pobre, Jasper nunca ficara sem água. Apesar de filho, sua mãe sempre estivera por ali. Seus lábios começaram a se umedecer, sua boca já não era uma lâmina, mas sim novamente a coisa que sua mãe, quando bebê, dissera que dava vontade de morder.
É incrível como o tempo pode piorar quando estamos desamparados, e foi isso que aconteceu. Tendo decidido permanecer deitado na caixa, Jasper não demorou a dormir novamente, por isso também não viu as primeiras nuvens se formarem e tornarem-se tão negras quanto a noite, até que os relâmpagos começaram a riscar os céus de amarelo luminoso; até que tudo se desdobrou em chuva. As primeiras gotas que caíram em seu rosto o fizeram acreditar que era sua mãe lhe oferecendo o peito, pois acontecera algumas vezes de as primeiras gotas do leite cair em sua face. Não era comum, mas acontecia. O pequeno esticou os braços na esperança de tocar em seus cabelos crespos e estranhos ao tato, mas que seriam muito bem-vindos agora, porém somente encontrou o ar. Jasper, em silencio, chorou.
Quantos bichos podem existir no escuro? Depende, a quaresma já passou, e, pelo menos até onde posso ver desta caixa, a lua não está no céu, se estiver não é cheia, as estrelas estão brilhando demais. Mas quantos? Calma, levei um tempo para excluir o lobisomem, mas ao menos já é menos um. Mas ainda sobram as bruxas, o bicho papão, o Saci-Pererê, o velho que pega crianças e o…. E o bicho de sóunzói! Melhor continuar deitado.
Já era noite quando Jasper novamente despertou. A fome era insuportável, o calor tinha lhe tirado todas as forças, e o pequeno cérebro não conseguia raciocinar com a devida lógica que a ocasião exigia. Olhando para o céu, Jasper pôde ver as estrelas olhando para ele, se perguntando, imaginou, quem seria aquele menino, sozinho numa caixa, e que, desde a manhã, esperava sua mãe, e seu peito. O melhor, pensou, era se levantar, sua mãe não podia estar tão longe.
Tendo dormido de novo, Jasper não notou o sol cruzar o céu, o calor aumentar a um ponto quase insuportável, e os urubus começarem seu vôo circular, reconhecendo o prato que em breve poderia lhes ser servido.
Onde posso estar? Aqui, claro. Mas onde é aqui? Aqui, com certeza, não é minha casa. E minha mãe? Deve estar por aqui. Mas nem veio me dar peito? Deve ter se cansado de ser apenas minha vaca, com certeza deveria ter sorrido mais vezes, mas me sinto um tanto tolo. Será que ela foi embora? Uma vez ela comentou com a vizinha a história de um pai que foi embora de casa, mas, pelo que ouvi no mesmo dia, as mães nunca saem de casa. Os pais é quem saem. Será que ela era meu pai? Não! Isso implica sérios problemas quanto ao leite que tomei durante todo este tempo.
Foi com o barulho de uma mosca voando ao seu redor que Jasper acordou, o sol no olho, o que trás uma indisposição sem tamanho, ainda mais aliada ao fato de que não tomara seu leite, mesmo que ralo, fornecido pela mãe. Passando as mãos sobre os olhos para desembaçar sua visão, Jasper teve um sobressalto que poderia tê-lo derrubado, se dormisse em uma cama. Ele não estava deitado em sua caixa de papelão dentro de casa. Ele estava deitado em sua caixa de papelão, a céu aberto.
Jasper esperara a mãe aparecer na borda da caixa de papelão como fazia todas as manhãs, com sua teta esquerda já à mostra, oferecendo-lhe sua primeira refeição, que consistia em nada mais que um leite ralo e sem gosto algum, que pouco servia além de subnutrir a criança em crescimento. Como ela não aparecera, Jasper pensou se devia chorar só um pouco, o que, sabia muito bem, era um tanto quanto perigoso, pois já apanhara algumas vezes por causa disso. A mãe de Jasper era uma boa mãe, mas, como todo ser humano que já pisou em solo terrestre, sua bondade e paciência tinham limites muito bem definidos. Tendo optado pelo não, Jasper decidiu continuar esperando, até que dormiu.
Juan Joaquim Jasperino acordara em sua cama improvisada pela mãe. Não era nada demais, apenas uma caixa de papelão velho, forrada com trapos que fariam o mais pobre cão se retorcer de repugnância, mas era o que sua mãe podia lhe dar na ocasião, e, para o pequeno Jasper aquilo podia muito bem ser um berço esplêndido, já que em sua idade não se conhece tudo o que a vida pode proporcionar. Aquele 21 de agosto de algum ano que o tempo fez questão de esquecer era um dia como outro qualquer no remoto vilarejo onde vivia com a mãe: quente, seco, sujo e um tanto quanto malcheiroso, mas, algumas horas depois, se revelaria inesquecível.